Nova proposta da Globo a clubes mostra mudança de postura; executivo fala sobre nova oferta


Desde que passou a ter  a concorrência do Esporte Interativo pelos direitos de transmissão do Brasileirão em TV fechada a partir de 2019, a Globo mudou. Não alterou só sua proposta para os clubes, mas também a maneira de tratar as negociações na imprensa e, aparentemente, até nos canais da própria emissora.

No ano passado, no início das negociações, ainda com a participação de Marcelo Campos Pinto, aposentado no final do ano, o discurso para os clubes era de que a crise econômica no país dificultava a venda de cotas de patrocínio, por isso o valor pago aos clubes precisava ser reduzido. Nos últimos anos também, a emissora mantinha nos bastidores o mantra de que pagava quanto avaliava que cada time merecia de acordo com o retorno dado.

Após o EI entrar na disputa, apesar da crise, a Globo aumentou substancialmente sua proposta e aceitou usar critérios como colocação no campeonato para dividir o dinheiro que paga.

No auge das negociações, a melhor maneira de fazer a divisão das cotas foi discutida por comentaristas de pelo menos um dos programas do SporTV, que faz parte do grupo.

Para entender as mudanças e as negociações o jornalista Ricardo Perrone, do UOL Esporte, enviou perguntas para a assessoria de imprensa da Globo. E as respostas vieram com outro sinal de transformação. Chegaram assinadas por Pedro Garcia, diretor da Globo Esportes e substituto de Campos Pinto. Antes, a emissora evitava responder a perguntas sobre o tema. Ainda que Garcia tenha se reusado, elegantemente, a explicar vários pontos das tratativas, é uma mudança de postura.

Veja abaixo como o diretor explica o fato de ter aumentado sua proposta após oferecer uma redução nos contratos, além de responder a outras perguntas.

Perrone – Depois que alguns clubes assinaram com a Globo, a emissora fez uma proposta de divisão de cotas diferente para outros. Antes, o valor foi negociado com cada um. Agora, está sendo oferecido um critério que leva em conta classificação no Brasileiro e audiência, além de uma parte fixa. Antes foram oferecidas antecipações. Agora a proposta é de luvas. Minha dúvida é: quem assinou o contrato antes terá o contrato equiparado ao de quem assinou depois? Quem aceitou antecipação terá o valor transformado em luvas? Quem já assinou também passará a receber por critérios como classificação e audiência?

Garcia – Nossa negociação é pelo futebol. Como fazemos questão de ressaltar, o Grupo Globo leva em conta o torcedor (que é um apaixonado pelo esporte), o anunciante e patrocinador (que investem pesado para terem suas marcas associadas ao futebol), as operadoras de TV paga (que são parceiras importantes do futebol brasileiro, pois ajudam a levar este espetáculo a mais telas), e principalmente os clubes e os jogadores (que são os que fazem o espetáculo). Mas é extremamente indelicado revelar detalhes de uma negociação que ainda está em andamento.

O que garantimos – e que é o que tem feito com que a maioria dos clubes brasileiros confie na seriedade e na transparência da nossa proposta e assine contrato conosco (e cada vez mais clubes têm confiado em nossa parceria e decidido caminhar junto conosco) – é o entendimento de que essa é uma negociação viva, que envolve interesses muito diversos e que deve entregar benefícios a todas as partes. Tem que ser sustentável para os anunciantes, e ser um compromisso de longo prazo. Não pensamos em um período de contrato, mas em uma vida de parceria em torno do futebol.

Por tudo isso, o desenvolvimento de um contrato e uma negociação não se fazem da noite para o dia. Estamos discutindo e avançando nesse processo de negociação desde o ano passado, no início de 2015. Ajustes e evoluções em negociações como essas, para serem sérios e sustentáveis, não podem ser feitos irresponsavelmente de uma hora para a outra. Como dizemos aqui entre nós, uma negociação não se muda da noite para o dia, mas deve ter o compromisso de evoluir todos os dias.

Perrone – Marcelo Campos Pinto defendia que a emissora deveria decidir quanto deve pagar para cada clube de acordo com o retorno de cada um. Agora, houve a mudança de incluir como critérios classificação no campeonato e audiência, além de uma parte fixa. Essa mudança se deve exclusivamente ao fato de o Esporte Interativo ter oferecido tal divisão?

 Garcia – Já respondemos detalhadamente na questão anterior, mas achamos importante reforçar que essa negociação não foi iniciada agora. Por tudo que explicamos, um modelo de negociação sério, sustentável e analisado tecnicamente, não muda repentinamente, mas precisa ter o compromisso de evoluir sempre. É nisso que acreditamos no Grupo Globo.

Perrone – No começo das negociações, a Globo alegou aos clubes que a crise financeira no país não permitia pagamentos de luvas e que o momento crítico forçava uma redução nos valores pagos, pois estava mais difícil negociar com patrocinadores. Mas a emissora mudou suas propostas nesses dois pontos. Por quê?

 Garcia – É inegável que o país vive um momento economicamente complicado. Toda negociação em curso, em qualquer setor da nossa economia, está passando hoje por um processo de ajuste constante. Mas nós temos um compromisso com o Brasil, pois somos um grupo 100% nacional que acredita nesse país, na retomada da nossa economia e no talento do brasileiro. Por isso que, mesmo nesse contexto economicamente difícil que estamos vivendo, nos sentimos desafiados a manter a aposta no futebol brasileiro, que é um conteúdo muito importante para nós. Tivemos que adequar outros investimentos para fazer mais esse aporte no futebol. Mas estamos fazendo isso de forma consciente, estudada e sustentável, para zelar por um modelo que garanta o crescimento e a união do futebol nacional. Nossa parceria e compromisso com o futebol são de passado, presente e muito futuro.

Perrone – Tradicionalmente nos programas da Globo não se discute divisão de cotas de TV. Mas, na última semana, numa das edições do Seleção Sportv o tema foi discutido e alguns comentaristas defenderam uma divisão mais equilibrada do que a que favorecia principalmente Corinthians e Flamengo. Houve uma mudança de entendimento do grupo em relação a discussões sobre o tema em seus programas?

 Garcia – Todos os programas dos veículos do Grupo Globo têm total independência. Isso é uma questão de princípios e valores, para nós. Independência aqui dentro não se discute, se pratica. Uma coisa são as negociações econômicas de direitos, outra, bem distinta, é a opinião dos nossos comentaristas, que são próprias e individuais. E aprendemos muito com essas opiniões. Não há interferência. Nós acreditamos e zelamos pela liberdade de expressão a cada momento, em cada uma das nossas empresas. Novamente, achamos importante lembrar que esse é um processo que acontece desde o início de 2015 e que vai seguir evoluindo o que for necessário, sempre que surgirem novos fatores que contribuam ou possibilitem essas evoluções. Queremos e vamos continuar contribuindo com o futebol brasileiro. É isso que fazemos há mais de 30 anos. É isso que vamos continuar fazendo.

Perrone – Os contratos que ainda estão sendo negociados vão ser só pela TV fechada como foi o do São Paulo? Em caso positivo, isso muda algo para quem já negociou os direitos em TV aberta, como o Corinthians?

 Garcia – Não achamos correto comentar processos de negociação em andamento. E temos que olhar todo este processo como uma grande negociação. Individual e coletiva. Mas garantimos que toda nossa energia está em criar condições para que nossos acordos sejam os melhores e mais abrangentes possíveis para todos as partes envolvidas. Porque acreditamos que é assim que deve ser.


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Por Vevé Prado

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