Em rede social, comentarista Eugênio Leal desabafa sobre saída da Rádio Tupi



O comentarista Eugênio Leal desabafou no Facebook sobre sua saída da Rádio Tupi, onde trabalhou por 19 anos recentemente demitido.

Confira o texto na integra:

Dezenove anos não são dezenove dias. Confesso que ainda estou com dificuldades de entender a minha vida (dia a dia) fora da Rádio Tupi. Por mais que essa fosse uma tendência clara há pelo menos dois anos a hora da mudança não é fácil. Até porque a relação era muito intensa em todos os sentidos. Muda a rotina, o dia a dia, a forma de enxergar as coisas, de se posicionar. É muito estranho.
Como essa relação foi muito profunda eu sinto necessidade desse balanço para virar a página de vez. Tenho que registrar para não deixar tudo “no ar”. Até em forma de satisfação aos muitos amigos conhecidos e desconhecidos que se manifestaram tão carinhosamente nos últimos dias.
Em 24 de março de 1997 eu já tinha dois anos de formado e enfrentava dificuldades em decolar a minha carreira de jornalista. Já tinha estagiado “no amor” na Rádio Nacional e na AM 1440, mas estava ajudando meu querido amigo Rodrigo Ledo na assessoria de imprensa da ABRAPIA quando recebi a ligação, num final de tarde, do Gustavo Mendes. Tínhamos trabalhado juntos na Nacional e ele havia acabado de chegar à Tupi levado pelo Luiz Penido que estava retornando à emissora. Pintou uma vaga de coordenação e eles lembraram do meu nome. No dia seguinte eu já estava lá, acertando documentação para que no dia 1 de abril tivesse pela primeira vez um emprego oficial.

Os primeiros meses foram uma pedreira. Entre outras tarefas tinha que produzir o “Comando Maior”, apresentado pelo Denis Menezes. O sistema de produção era uma loucura – tinha tudo para dar errado. E dava. Diariamente. E quem conhece o Denis sabe em que nível era a cobrança. Mas fui dando o meu jeito e as coisas se acertaram. Meu prêmio foi ficar preso ali. Como tinha arrumado a casa não podia sair para fazer outras coisas. 

Na época, por um misto de falta de confiança e medo da fiscalização trabalhista, a rádio não permitia sequer que eu falasse no ar. Trabalhei dois anos exclusivamente nos bastidores. A única exceção era um quadro gravado com dois minutos de duração que o Marcus Di Giacomo criou para mim num programa que ia ao ar nas noites de sábado. Mas pouca gente ouvia.

Com a saída de Denis e chegada de Washington Rodrigues eu fiquei mais livre para tentar outras coisas, mas seguia na produção. Até que veio o carnaval de 1999. Roberto Feres, chefe do jornalismo e responsável pela cobertura carnavalesca, soube que eu frequentava as escolas de samba e me convidou para ser, de cara, comentarista na transmissão dos desfiles. A minha grande chance, mais uma vez, veio no carnaval (entrei no Rádio, na Nacional, através do “Ensaio Geral”, do meu padrinho Tárcio Santos).

De início eu nem fui “chamado” pelos âncoras que não me conheciam e preferiam dar a palavra aos outros dez comentaristas da bancada. Alguns nomes consagrados como o ex-diretor de TV Régis Cardoso, o jornalista Genílson Gonzaga e dois ex-diretores de operação da Riotur – um deles o Antonio Lemos, além do meu amigo Reginaldo Bessa.

Lá pela quarta escola Silvio Samper começou a me dar mais a palavra e depois de alguns comentários veio o primeiro elogio: - o garoto entende de samba!, bradou o difícil Samper. No dia seguinte Wagner Menezes me ligou para dizer que todos na emissora só falavam no meu desempenho na transmissão. O fato é que na quarta-feira de cinzas eu estava escalado para fazer reportagem no jogo Vasco x São Paulo pelo torneio Rio-SP. E daí não parei mais.

Passei a cobrir folgas dos setoristas nos treinos e nos jogos, muitas vezes atuava como repórter volante, nos bastidores do Maracanã. Eu não via o jogo, mas circulava por todos os cantos do estádio atrás de informações. Não media esforços. 

Até que em novembro Gustavo Mendes deixou a cobertura do Fluminense para trabalhar na assessoria do clube. Passei a cobrir o tricolor na reta final da Série C. Minha primeira viagem foi a Manaus para um jogo com o São Raimundo. Seguiram-se várias viagens para todos os cantos do país cobrindo jogos de Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo. Conheci quase todos os estados do Brasil. 

Quando voltei das minhas primeiras férias recebi um bom aumento e pouco depois cheguei à condição de repórter titular das transmissões principais. Passei a fazer a “ponta” (repórter atrás do gol) sempre à direita do narrador. Wagner Menezes ficava à esquerda onde segundo ele “a média (de gols) é alta”. Foram doze anos à beira do campo.

O trabalho em paralelo na Tv Record me tirou da cobertura diária do Fluminense em 2002. Quando saí de lá voltei por um curto período porque o meu chefe, Luiz Penido, tinha outros planos. Ele me pediu para reorganizar toda a programação esportiva da Rádio. Na época éramos vice-líderes em audiência. Fiz um projeto extenso que previa roteirização de todos os programas e transmissões com novas orientações editoriais. Essa programação estreou no início de 2003 e sua estrutura básica permanece até hoje, com alguns ajustes. Houve uma série de rejeições internas no início, mas o projeto foi implantado e sem falsa modéstia foi um dos alicerces para que a Tupi chegasse à liderança poucos anos depois.

Ainda em 2003 estreamos o Show de Bola, programa criado por Marcus di Giacomo para agitar as noites de sábado. Virei apresentador! Àquela altura Jorge Nunes já era meu parceiro não só na Tupi, mas em programas de Tv na Record e Band. Mas foi o nosso projeto conjunto que nos aproximou definitivamente. Muita saudade do baixinho, todo dia! Chegamos rapidamente à liderança!
Enquanto isso a transmissão de carnaval da Tupi ia diminuindo e isso me incomodava. Aproveitando-me da proximidade que ganhei com a direção pelo sucesso do Show de Bola me atrevi a apresentar um projeto revolucionário de cobertura do carnaval um mês antes do desfile de 2006. O nosso diretor artístico Ricardo Henrique gostou e, junto com o Diretor Geral Alfredo Raymundo, bancou a ideia. Foram trinta dias de loucura porque o projeto era megalomaníaco! Foi para o ar e depois da folia a direção da emissora me pediu um projeto para que cobríssemos carnaval o ano inteiro! Quanta alegria!

O projeto foi sendo implantado aos poucos e cresceu ano após ano até chegarmos ao ponto de termos uma equipe com quatro pessoas exclusivamente voltadas ao carnaval, contratadas pela rádio. Impensável! A repercussão embalou o sonho da compra de um camarote bem posicionado para os âncoras e comentaristas. Um luxo exclusivo da Tupi. Vários nomes importantes passaram por este projeto, mas o grande parceiro que tive nestes anos foi o Marcos Frederico, o “seu Tupi”, que trabalhou demais pelo sucesso do Tupi Carnaval Total. Fizemos muitas loucuras como coberturas ao vivo das finais de samba-enredo e a primeira transmissão de um ensaio técnico. Transmitimos com imagens pela internet com exclusividade alguns desfiles de escolas mirins, Grupo B e até Grupo A. Criamos uma webradio que chegou a lançar a gravação oficial dos sambas-enredo em primeira mão. E uma penca de programas especiais. Um sonho que virou realidade. Sem falar nas transmissões históricas dos desfiles sempre com uma equipe apaixonada e muito competente. Viramos, sim, referência.

No esporte a carreira decolou durante a Copa da Alemanha em 2006 quando assumimos a liderança da audiência no Giro Esportivo e, depois em toda a programação dedicada ao futebol – o que permanece até hoje. Tive a honra de cobrir no local também a Copa de 2010 na África do Sul e a de 2014, aqui no Brasil. 

Neste período fui me encantando pela função de comentarista e comecei a estudar para exercê-la. Aos poucos Penido foi me dando algumas oportunidades. A partir de 2010 elas aumentaram e, em 2012, quando ele saiu para a Globo, pedi à direção que eu fosse efetivado na função, deixando a reportagem para o passado. Fui atendido. Virei comentarista!

Neste mesmo agitado 2012 fui chamado para participar do Fox Sports Rádio e a minha história começou a mudar. Com o tempo a TV foi aumentando sua programação e demandando maior participação minha. Esse processo teve uma guinada um pouco antes da Copa de 2014, quando – sob novo contrato – passei a dar prioridade ao Fox Sports. Porque via ali um novo desafio com perspectivas de crescimento profissional. Mas não me imaginava fora do rádio. Isso tudo foi conversado com a direção das duas emissoras, mas ainda assim o dia a dia foi desgastante. Era complicado equilibrar as escalas, muitas vezes coincidentes. Tive que pedir para sair de muitas transmissões de um lado e de outro. 

Após a morte do meu grande amigo Jorge Nunes a Tupi precisou muito de minha presença, o que dificultou as coisas, mas chegada de Gerson ano passado me aliviou bastante nas escalas. Eu, que era figura presente na Rua do Livramento por cerca de dez horas diárias em média, nos últimos anos tive que me afastar de tudo. Chegava na emissora em cima da hora dos programas ou transmissões. Diminuí minha convivência com os colegas e diretores. Fui, aos poucos, sentindo que a minha história ali se aproximava do fim. Mas nunca quis que ele chegasse.

Sempre amei fazer rádio. Desde criança sempre sonhei com isso. Eu era muito feliz quando estava no ar, por mais difíceis que as coisas estivessem nos bastidores. Me sentia em casa. Quando abria o microfone sentia a obrigação de dar o meu melhor aos amigos do outro lado. Procurei ser sempre o mais sincero, trazer informação e opinião sem compromisso com nada que não fosse a minha verdade, a minha maneira de entender o mundo. Fiz críticas duras aos clubes de futebol e ao carnaval em geral sempre com a vontade de ajudar. Acredito que apontar erros é colaborar. Nunca pretendi ser um vendedor de ilusões, mas aquele que propõe mudanças para melhorar as coisas que ama – futebol e carnaval.

Mas um dia veio a crise. E a Tupi sucumbiu. Os salários, antes pagos religiosamente no dia 5, começaram a atrasar há cerca de três anos. E a coisa chegou a um ponto insuportável agora em 2016. Tiraram a “caneta” das mãos do nosso mestre e líder Alfredo Raymundo e a coisa foi, aos poucos, degringolando. No ar a gente tentava sempre esconder o sofrimento de todos dentro da emissora. Pensei inúmeras vezes em pedir demissão, mas como seria viver sem a alegria de estar no ar com a “Família Tupi”? Que satisfação daria aos nossos fiéis ouvintes? Demorou demais para que viessem as demissões que aconteceram semana passada. Não sei se haverá jeito para a Tupi. Torço muito para que haja. Não só para ela, mas para o meio rádio que anda combalido.

Entendo e aceito os critérios que levaram à minha inclusão na lista de demissões. Eu era “caro” (se pagassem) e tinha pouca disponibilidade de tempo. E a decisão veio no momento certo, em que o Fox Sports se mudou para a Barra. Fiz por dois dias o itinerário e quase morri de cansaço. Não daria mesmo para seguir em ambas as casas. Deus sempre escreve certo.

Não sei qual será meu futuro no rádio, a minha paixão. Não pensei nisso ainda e sei que o veículo está muito afetado por más gestões e pelo novo panorama da mídia, além da crise brasileira, mas vejo saída na inteligência e no amor pela causa.

No momento meu foco é muito claro: pretendo crescer ainda mais junto com o Fox Sports, que vive um lindo momento. Estou muito feliz lá e tenho certeza que nosso trabalho é sucesso. Conto com os amigos nessa jornada. 

Quero agradecer aos tantos companheiros com quem trabalhei nestes dezenove anos. Não vou citar nomes, mas todos vocês sabem que foram especiais na minha vida. Fizeram parte de uma história linda que agora está registrada aqui. Obrigado. Viremos a página! Que venham os Jogos Olímpicos!


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Por Vevé Prado

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